Antes de julgar
Na padaria do bairro, Lara espera o Uber com o celular na mão e um comentário cruel na ponta dos dedos. Na mesa ao lado, Jesus mexe o café devagar, como quem vê mais do que o vídeo na tela
Na padaria do bairro, Lara esperava o Uber com o celular na mão e um comentário afiado quase pronto. Em 2026, bastam alguns segundos para transformar o erro de alguém em entretenimento, e um vídeo da faculdade já tinha feito isso com um rapaz gaguejando na apresentação. Memes, risadas, cortes cruéis. Jesus estava na mesa ao lado, mexendo o café sem pressa, olhando para a tela e para o que crescia dentro dela. Ele não negou a falha do rapaz; só puxou Lara para mais fundo: antes de apontar, encara o que te governa por dentro. E se fosse ela do outro lado, exposta num dia ruim, enquanto quem a julgava escondia a própria bagunça? Julgar é fácil quando a dor veste toga. Ver com verdade começa quando a pessoa admite o próprio caos. Lara apagou o comentário, guardou o celular e ficou em silêncio. O vídeo continuou ali, mas a condenação perdeu o volante, e o rosto dela mudou junto.
#jesus